terça-feira, 8 de setembro de 2009

As favas da "baleizoeira"

Estávamos em plena guerra do Ultramar - mais tarde promovida a Guerra colonial - e a baleizoeira, à imagem do que acontecia com milhares de mães espalhadas pelo país, tinha um filho mancebo, prestes a tornar-se em mais um desses terríveis soldados colonialistas (os tais que contribuíram para a promoção da guerra, após a revolução).
Mãe é mãe, porra! Aqui, na Moita ou em Baleizão e a baleizoeira estava disposta a fazer tudo (ou a tudo fazer, como se diz em linguagem futebolística) para "livrar" o seu querido filho da guerra.
Mas isso de livrar um filho da guerra, no chamado "tempo da outra senhora", que por acaso até era um senhor e se chamava Salazar (podia chamar-se Sócrates, mas não: chamava-se mesmo Salazar), não era tarefa fácil. No entanto, a nossa baleizoeira, mulher de "antes quebrar que torcer" da terra da outra, Catarina, estava decidida e uma alentejana decidida é mais teimosa do que um alentejano bêbado.
Então, um belo dia de não sei que estação do ano (sei lá eu quando é que se colhem as favas eheheh), meteu-se na camioneta da carreira e lá vai ela, a caminho do quartel de Beja, falar com o major médico, responsável pelas inspecções.
E dizia a baleizoeira:
- Ai senhor dótori, livre o mê filho da tropa, que dos doze que pari, entre mortos e casados (fora os que foram "por água abaixo") é o único que tenho em casa.
- Ó mulher, mas você já pensou bem no que me está a pedir? Você quer que eu me desgrace?
- Pela alminha dos seus sapatos, senhor dótori, livre o mê filho da guerra. Sou viúva e ele é o mê amparo.
- Mas para isso ele que meta os papéis como "amparo de mãe", depois de assentar praça e pode ser que tenha sorte. Olhe, ele há dias de sorte… agora não me venha para cá pedir falcatruas que até posso vir ser preso. Ou quer que eu vá passar umas "férias" ao Forte da Graça?(*)
Tenha dó de mim, senhor dótori. Ê na tenho grandes posses, mas prometo que se livrar o mê filho da tropa lhe trago umas favinhas que tenho lá no mê quintal, que são tã tenrinhas, tã tenrinhas, que se hão-de desfazer em merda na boca do senhor dótori.

(*)Forte da Graça, ou Forte de Elvas, presídio militar do tempo da ditadura, famoso pelo barril de água que os condenados teriam, segundo se dizia, de transportar do poço, na base do monte onde o mesmo está instalado, até à cisterna situada lá no cimo. Dizia-se também que o barril ia mal cheio, para que o baloiçar da água tornasse mais penoso o castigo.