sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Acontece aos melhores (como eu ;PPP)

Este texto (enorme) é dedicado à Patrícia, do "Vírgula Voadora", que teve um azarzito com a carta.
Olha prós "calhordas" à tua volta e não desanimes.
Como acontece com toda a gente, logo aprendes a conduzir quando tiveres carta.

Eu sou um tipo muito nervoso, muito acelerado, a quem o mais pequeno problema tira o sono. No entanto encarei sempre os exames com uma "descontra" que os colegas até ficavam parvos. Nos meus tempos de estudante (trabalhador estudante, diga-se), como aluno auto-proposto, tinha de fazer exames a todas as disciplinas (os alunos da escola tinham a hipótese de dispensar exames, caso as notas o permitissem, mas para quem estudava "por conta própria" não havia "abébias").
Adoptava sempre a "filosofia" de que pelo menos sabia metade da matéria, o que já dava direito a um 10. Se conseguisse acertar mais alguma à sorte, tudo o que viesse era lucro. Tive até um caso caricato com Físico-química.
A empresa onde eu trabalhava disponibilizava salas e pagava a professores, normalmente engenheiros da própria empresa e um ou outro contratado no exterior.
Arrancávamos com metade das disciplinas do curso e ao fim de seis meses propúnhamo-nos a exame. Nada desta brincadeira que se vê agora, com as novas oportunidades, porque a conclusão do curso dependia sempre da escola (neste caso a Afonso Domingues), que nutria uma certa antipatia por uns tipos que caiam ali de pára-quedas e que, por acaso – ou talvez não – mesmo sujeitos a exame nacional, obtinham notas superiores à média dos alunos "residentes". Há que ter em conta que estou a falar de um curso que substituiu o antigo industrial (Curso Geral de Mecânica) e de alunos com 20 anos, ou mais, no ramo da metalo-mecânica e nestas coisas a prática e a maturidade são extremamente importantes.
O meu orientador de físico-química era um antigo camarada da "ferrugem" que tinha chegado a engenheiro. O Eng. H. era um tipo do melhor que há, como pessoa, mas foi sempre um "baldas" e um desorganizado do caraças. Lembro-me dele ainda éramos putos e enquanto nós já estávamos no local de trabalho, o H. ainda vinha a correr pela avenida com 500m de comprimento que atravessava a empresa, a enfiar o casaco de ganga e com as botas desapertadas e a fralda da camisa de fora. Como pessoa não lhe subiu o "canudo" à cabeça e continuou a ser um "bacano", mas como professor era uma desgraça eheheh. Bastava que algum "rabo de saia" lhe desse dois dedos de conversa e lá se ia uma aula pró "maneta". E como não percebia grande coisa de química, mesmo que ninguém lhe desse conversa ele tratava de a procurar.
Resultado: passados 4 dos seis meses de aulas, o H. ainda não tinha "tocado" na química.
Um dia já estava tão farto do H. que resolvi desistir de físico-química. Passadas duas aulas a notícia chegou aos ouvidos do H. (distraído como era, provavelmente nem tinha dado pela minha falta eheheh), que me apanhou à entrada da "Formação e Aperfeiçoamento" e já não me largou.
- Porque tens de ir a exame, porque tu até te "safas" bem e porque vou começar agora a dar química e bastam meia dúzia de aulas para dar a matéria que falta e bla, bla, bla, whiskas saquetas.
Não vou! Não vou! E não vou! Não vou fazer figuras tristes para a Afonso Domingues e o meu curso acabou aqui, foi a minha resposta.
Por acaso as inscrições para exame tinham sido na semana anterior à minha desistência e, uma vez que tinha pago a inscrição, ir a exame dependia apenas da minha vontade.
Foi então que um colega de um nível mais adiantado veio ter comigo e me chamou à razão.
Não ligues ao artolas do H., porque ele já fez o mesmo comigo. Sabes que o gajo é sempre a mesma merda e com essa teimosia o único prejudicado és tu. Vai comprar o livro do ano passado, porque o deste ano não vale nada, estuda a parte da química, que está muito bem explicada e vai a exame.
E fui.
E o H. quando me viu na escola, no dia do exame, não sabia se havia de rir ou chorar, porque eu tinha desistido das aulas dele mas era muito capaz de o envergonhar com uma boa nota.
E envergonhei. Tirei um 15 que, por acaso, foi melhor do que a dos tipos que não desistiram das aulas do H.

Esta conversa toda era só para dizer que um "rapaz" que nunca se enervava nos exames, fez uma figura triste no exame de condução. Não chumbei, mas para quem estava habituado a andar de mota sempre a "abrir" no meio das filas de carros na 2ª Circular, ia sendo uma vergonha. Em grande parte porque o meu instrutor também não foi muito inteligente. Na véspera de me levar a exame é que se lembrou de mudar o disco de embraiagem. Está-se mesmo a ver que no primeiro arranque a subir, deixei logo o motor ir abaixo. E a partir daí, não sei se por ver a confiança traída ou porque carga d'água, entrou-me uma "tremideira" nas pernas como nunca me tinha acontecido.
Tive um bom examinador. Cara de pau, ao princípio, mas de uma humanidade fora do vulgar, olhou para mim, olhou para a papelada que tinha na mão e perguntou-me:
- Sr. J., costuma ver Fórmula1? Já reparou que os tipos também deixam o motor ir abaixo e não ficam com as pernas a tremer? Então você, um homem habituado a lidar com metralhadoras e granadas (ler a minha ficha já era indício de algum interesse pelo que estava a fazer. É um pouco como os profs que ao fim de duas aulas já sabem o nome dos alunos) fica-me com as pernas a tremer, só porque não arrancou à primeira? Vamos lá embora que ainda tem mais duas hipóteses de falhar e eu tenho que ir hoje para Santarém.
E a partir dali mandou-me fazer todas as manobras (marcha atrás, estacionamento, inversão de marcha, etc.) em subidas ou descidas.
No fim passei no exame, mas fiquei tão desiludido comigo, por não ter conseguido a prova limpa que eu sabia ser capaz de fazer, que nem comemorei a passagem no exame.
Foi em Abril mas estava um calor de trovoada que ainda hoje me sufoca, só de me lembrar. Entrei no café do meu bairro, pedi uma "bica" e fiquei a olhar através das pessoas e das paredes.
Quem sabe não começaram aqui os meus dias de prostração, como o de ontem.

7 comentários:

S* disse...

Ei-lo! O autor dos posts e comentarios mais parvinhos da blogosfera... eheheh

Gosto de te ler oh.

Galo disse...

Ai que coisinha mais "cutxi-cutxi".
Com um elogio destes, vindo que quem vem, sinto-me um pintainho mais fofo do que o da foto do perfil eheheh.
Piu, piu, piu.

opinião própria disse...

Os primeiros momentos pré e pós carta são sempre inesqueciveis para a vida toda... É preciso é carregar no acelarador...

Anjo De Cor disse...

Eu não gosto de falar dos trabalgos que passei para tirar a minha carta de condução ficava muito nervosa com aquela treta toda e o certo é que só consegui passar no código a 4.ª vez na condução passei a 1.ª mas o instrutor pensou muitas vezes que era a última aula que dav, hehehehehe, foi uma verdadeiro karma mas tb nem sei explicar porque....
Mas a verdade é que os nervos estragam tudo...
Bjs*

Olhos Dourados disse...

É assim a vida!

mfc disse...

Como já disse lá no Pé... somos os nossos maiores críticos!
Parabéns por este post de vencedor.

Patrícia disse...

A primeira das histórias... fantástico! Tudo, ou quase tudo, depende da força de vontade que tenhamos. E se queremos muito alguma coisa é difícil conseguirmos, mas conseguimos =)

A segunda das histórias... eu percebo o que escreves. Chumbei mas fiquei com uma raiva a mim mesma que se por acaso ficasse aprovada não me iria sentir vencedora.

Beijinho Fred! =) *