quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Descampado

Há dias encontrei, por acaso, a opinião de um engenheiro mecânico que dizia mais ou menos isto:
- antes de gripar, um motor dá tudo o que tem para dar e só depois morre de vez (peço desculpa pela citação sem a respectiva referência ao autor, mas não me lembro onde é que li isto). Lembrei-me logo dos tempos em que andava de mota e de como aprendi a temer os aumentos de fulgor da "máquina" que, normalmente, eram prenúncio de avaria grave. Ainda hoje, sempre que o motor do carro parece responder melhor ao apelo do pedal da direita e demonstra uma regularidade de potência na maior parte das rotações, começo logo a contar os "trocos".

Hoje, ao fim da tarde deste dia deprimente de que aqui dei breve relato, decidi sair de casa e arejar, dando um passeio com a cadela num descampado situado um pouco acima da minha casa.
O local não tem nada de especial. É apenas um descampado sem árvores, batido pelo sol abrasador, durante o Verão e pelo vento frio do Norte, durante os meses de Inverno. Tem, no entanto, o desafogo de uma vista abrangente sobre as cidades de Odivelas, Amadora e uma parte considerável de Lisboa e quando o ar está límpido, ao longe ainda pode ver-se a silhueta da Serra da Arrábida, com destaque para a preponderância característica que a vila e o castelo de Palmela imprimem à linha do horizonte.
Não sei se pelo vento frio do fim de tarde, se pelo desafogado horizonte que se estende até onde a vista pode alcançar, ou se ainda pelos campos de minúsculos malmequeres que ali florescem na Primavera, o certo é que aquele baldio descampado tem sobre mim um fascínio particular e tem o condão de me fazer reviver, de todas as vezes que lá vou, as más recordações dos últimos e penosos dias do que eu chamo "a minha primeira vida", ali passados em loucas deambulações, bem como a lenta recuperação da esperança naquilo a que alguém já chamou de "uma nova oportunidade".

O relato deste episódio não teria razão de ser, nem "o meu" descampado seria para aqui chamado, não fosse o facto de a íngreme ladeira que lhe dá acesso e que costuma deixar-me exausto, hoje ter sido vencida com relativa facilidade. Melhoria que tanto pode ser atribuída ao facto de o calor já não ser tão intenso, como ainda à teoria de que "um motor dá tudo o que tem para dar, antes de 'pifar' de vez".

6 comentários:

Rosa Cueca disse...

Para Novas oportunidades, afaste-se do programa governamental, é o que aconselho.

Quando á teoria mecânica de que fala, tem toda a razão (e sei porque trabalho com essa gente ;) ).

Mas o bichinho humano é um bicho diferente, normalmente é como os gatos: parece frágil quando está doente, já não damos nada por eles e conseguem surpreender com uma fantástica capacidade de melhoria e reacção, indo buscar forças onde não se sabia que tinha.

Por isso o que aconselho é que em vez de cantar de galo, mie um bocadinho, pode ser que melhore :) e bons passeios!

Patrícia disse...

Ai homem... essa quinta-feira não foi nada boa. Que pensamentos... a tinta de areia deixa-te mesmo deprimido! Não concordo nada com essa do motor, nem com aquela expressão: "as melhoras da morte".
A idade não perdoa, a verdade é essa. Mas ainda há muito para recordar, muito para viver, e outros motores hão de gripar antes do nosso =)

Anjo De Cor disse...

Xiça que exercicio metal mais complicado .... mas agora à sério esse lugar deve ter uma bela vista ;)
Beijinhos e bom fds ;)

Patrícia disse...

Então existe alguem neste momento a contar "os trocos" :P

Clave de Sol disse...

Esperemos que seja e primeira hipótese...
Ou então a facilidade aparente foi pela espectativa do reconforto da paisagem...

mfc disse...

Que num "pife" e que seja sinal de boa carburação!